Samambaias na trilha para a Prefeitura

Roteiro de 5 dias no Vale do Pati

Quando decidimos ir para a Chapada Diamantina, em Junho de 2017, fomos bombardeados com centenas de informaçõessobre pacotes, roteiros e dicas ao pesquisar pela Internet. Logo vimos que os cinco dias que dispúnhamos não eram nem de longe suficientes para conhecer todos os encantos dessa maravilha brasileira.

Ainda mais na semana de São João, quando a cidade de Lençóis fica apinhada de gente, e os atrativos turísticos então, nem se fala!

Foi quando uma amiga nos contou sobre o Vale do Pati, e automaticamente ficamos encantados! Era para lá que iríamos!

O Vale do Pati fica no coração do Parque Nacional da Chapada Diamantina. Cercado por imensos paredões, e de difícil acesso, forma um paraíso perdido em meio a natureza, onde vivem as poucas  famílias que oferecem abrigo para aqueles que se aventuram pelas trilhas. A experiência de caminhar pelo Pati é mais que visitar pontos turísticos, como mirantes e cachoeiras. O percurso todo é de pura contemplação, te proporciona um forte contato com a natureza externa e interna. E à noite tudo torna-se ainda mais enriquecedor ao pernoitar nas humildes casas dos moradores, gente simples e do bem, debaixo de um céu absolutamente estrelado. Sem internet, sem celular, malemá um cômodo ou outro iluminado com uma pequena fita de led (energia esta, oriunda de placas solares instaladas recentemente). Estar no Pati é se isolar de tudo ao passo que se conecta com aquilo que realmente importa.

Neste post contaremos como foram os nossos 5 dias neste paraíso!

Os preparativos

Primeiramente, contrate um guia. Ok, se você é um aventureiro experiente, com posse de bons mapas ou GPS, é possível fazer sem guia. A trilha é bem demarcada. Mas para quê arriscar? Além da segurança e comodidade que um guia oferece, você incentiva a economia local.

Fechamos o passeio com o Lucio, da Pousada Casa da Geléia. Foi indicação daquela nossa amiga, que não poderia ter sido mais certeira. Ele e a sua família foram extremamente receptivos e hospitaleiros, além de fazerem geleias deliciosas que comemos no farto café da manhã! A pousada fica bem próxima ao centro, mas longe o suficiente da muvuca. O local é aconchegante, repleto de árvores que o próprio Sr. Zé Carlos, proprietário do local, plantou ao longo de décadas. Esse ambiente rodeado de natureza atrai dezenas de passarinhos, que não param de dar o ar da graça desde os primeiros raios de sol.

Nos hospedamos lá na primeira noite, antes de partirmos para o Pati. Deixamos o peso extra que estávamos carregando, e fizemos uma mochila mais enxuta para a trilha. Como era semana de São João, o Lucio não poderia nos guiar pelos 5 dias, então indicou o guia Danilo (conhecido como Sinho), nativo de Lençóis, outra figura incrível com que nos conectamos muito bem! Foi ele o responsável por nossas refeições ao longo dos 5 dias, inclusive carregá-la em sua mochila cargueira durante toda a trilha. Na noite anterior sentamos para discutir as opções de itinerário.

A aconchegante pousada Casa da Geleia
A aconchegante pousada Casa da Geleia

Existem basicamente três vias de acesso ao Pati: Guiné, Vale do Capão e Andaraí. E as trilhas lá dentro ficam a seu critério. Por exemplo, você pode entrar por Guiné e sair por Andaraí; entrar por Andaraí e sair pelo Capão, etc. A escolha do itinerário muda um pouco as hospedagens, mas todas passam basicamente pelos mesmos lugares, com um ou outro diferencial. O jeito mais fácil de adequar a logística é acertando esse percurso com o guia um dia antes, que já combina as datas com um motorista. Ele vai te deixar em um ponto e buscar em outro. Por isso, é importante já saber o roteiro pretendido antes de começar a aventura, para que o motorista possa te buscar no local e data combinados.

O itinerário que escolhemos foi entrar por Guiné e sair por Andaraí. Com isso, não passaríamos pela Cachoeira do Calixto, que ficaria um pouco fora de mão, mas subiríamos a desafiadora Subida do Império, tendo uma vista magnífica do Vale. Optamos por esse trajeto porque achamos que ficaria menos corrido. Se saíssemos pelo Capão, teríamos uma longa estrada de chão até Lençóis e chegaríamos mais tarde na cidade; enquanto de Andaraí a estrada pavimentada diminuiria o tempo de deslocamento, e poderíamos descansar um pouco na Casa da Geléia antes de pegar o nosso ônibus para Salvador.

Roteiro definido, era hora de descansar para os próximos 5 dias.

Dia 1: Guiné, Rio Preto, Mirante da Rampa, Descida da Rampa e pernoite na Igrejinha

Começamos o primeiro dia saindo às 8h30 de Lençóis e chegando às 11h no começo da trilha, em Guiné. O percurso já começa com um pequeno desafio que é a Subida do Beco, uma subida íngreme que demora não mais que uma hora de caminhada lenta e ininterrupta. Subimos praticamente sem descanso, pois logo percebemos que durante essas puxadas, o pior a se fazer é deixar o corpo esfriar. Um passo de cada vez, contemplando a imensa montanha ao nosso lado, subimos sem tantas dificuldades a rampa que as mulas de carga sobem tranquilamente, carregadas de mantimentos para abastecer o Vale.

No final da Subida do Beco, primeiro obstáculo vencido
No final da Subida do Beco, primeiro obstáculo vencido

Lá em cima a paisagem muda para uma vegetação mais rasteira e típica do Cerrado. Estávamos nos Gerais do Rio Preto. Andamos por cerca de uma hora nessa trilha de mata aberta, dando graças a deus por estarmos de chapéu, e pelo vento fresco estar soprando sem parar. Por volta das 13 horas fizemos a nossa parada para almoço no Rio Preto. Enquanto nos banhávamos nas águas geladíssimas do Rio, o Sinho preparava o nosso lanche.

Banho no Rio Preto
Banho no Rio Preto

As refeições durante a trilha foram todas preparadas pelo Sinho. No almoço geralmente era um lanche rápido, com direito a sanduíches, frutas e sucos; no jantar o guia demonstrava todo o seu dote culinário com pratos simples e incrivelmente deliciosos, preparados nos fogões a lenha das hospedagens. O Sinho ainda teve o cuidado em nos perguntar sobre restrições alimentares, caso tivéssemos. Mas a gente manda a ver em tudo!

Durante o almoço pudemos conversar melhor com o Sinho, e descobrimos que há anos ele faz parte do grupo de combate a incêndios na Chapada Diamantina, que sofreu uma grande queimada em 2015. Sabe aquelas notícias no Jornal Nacional que a gente assiste, fica impressionado e depois não se fala mais naquilo? Pois é, muitas vezes esquecemos dos heróis por trás dessas operações, e do quão desgastante elas são para o brigadista. O Sinho é um desses heróis. Um cara de muita garra e que tem um amor imenso pela Chapada… dava para sentir a emoção em sua voz cada vez que ele contava os casos de incêndio no Parque.

Guia Sinho, encarando toda a trilha com um chinelinho!
Guia Sinho, encarando toda a trilha com um chinelinho!

Bom, ainda tínhamos um longo caminho pela frente, e caminhamos por mais 1 hora nos Gerais do Rio Preto. Caminhada fácil, debaixo de um sol forte, amenizado pelo vento fresco. Aos poucos as pernas iam se acostumando ao ritmo, a mochila já não pesava tanto, e o equipamento de fotografia já não era tão incômodo. O corpo e a mente começavam a entender que essa seria a rotina dos próximos 5 dias!

Cerca de Pedra, no Gerais do Rio Preto
Cerca de Pedra, no Gerais do Rio Preto

Por volta das 15h chegamos no fim do Gerais, e pela primeira vez pudemos ter uma vista do Vale do Pati! Foi esplêndida!!! O Sinho nomeava os morros que acompanhariam a gente de cabo a rabo nessa jornada. Foi a primeira vez que vimos e ouvimos falar do Morro da Lapinha, Morro do Castelo, Sobradinho… na hora eram apenas nomes jogados ao relento, mas hoje reconhecemos cada um deles como velhos amigos.

Mirante da Rampa, com vista para o Morro da Lapinha, Castelo e Sobradinho
Mirante da Rampa, com vista para o Morro da Lapinha, Castelo e Sobradinho

A gente achou que estava indo bem, mas agora que começava a parte pesada: a descida da rampa. Quem acha que na descida todo santo ajuda, está enganado. Elas se apresentaram bem mais desafiadoras que as próprias subidas. E a descida mais pesada, na nossa opinião, foi essa. É bem rápida, coisa de 30 minutos, mas fez cada músculo da perna trabalhar ao máximo, liberando todo  ácido lático que deixou as nossas pernas doloridas a noite!

Chegamos na primeira hospedagem da trilha já no fim da tarde, por volta das 16h30. A Igrejinha estava cheia de gente, com turistas de toda parte. Aproveitamos para tomar o único banho morno dessa viagem, e passamos a noite em volta da fogueira (a primeira de muitas), ora cantando, ora ouvindo uns recitarem poesias, aos goles de um vinho que alguém abriu. O céu sem Lua brilhava todo estrelado acima de nossas cabeças, deixando a noite ainda mais especial.

Ceu Estrelado na Hospedagem Igrejinha
Ceu Estrelado na Hospedagem Igrejinha

Dia 2: Cachoeirão por cima, Cachoeira do Funil e pernoite no Miguel e Agnaldo

Acordamos cedo no dia seguinte para uma caminhada de 14km (ida e volta) até o Mirante do Cachoeirão, saindo da Igrejinha. A trilha em si é fácil, com trechos planos, e poucas subidas não íngremes. Em cerca de metade do percurso, a imensa Serra do Sobradinho nos acompanha ao lado esquerdo, enquando vamos deixando para trás o Morro da Lapinha e o Castelo, permitindo uma vista linda deste lado do Vale do Pati.

Trilha para o Cachoeirao, com o Morro do Sobradinho ao fundo
Trilha para o Cachoeirao, com o Morro do Sobradinho ao fundo

Vista da trilha, com o Morro Lapinha ao fundo
Vista da trilha, com o Morro Lapinha ao fundo

Depois de aproximadamente 1h30 de caminhada, começamos a contornar o Sobradinho por trás, e após uns 40 minutos chegamos na incrível vista do Cachoeirão Por Cima. Trata-se de várias quedas d’água num paredão de 300m de altura, e este percurso que fizemos nos leva para a vista em cima dele. Como o mês de junho é relativamente seco, pudemos contar apenas 5 quedas. Nos meses de cheia, dizem que dá para ver até 20!

Cachoeirao por cima
Cachoeirao por cima

Ficamos deitados nas pedras, só observando a dança que as gotículas de água faziam até atingir um poço lá embaixo, que tem a forma de um coração. Parecia uma cortina d’agua dançando ao vento.

Cachoeirão por Cima
Cachoeirão por Cima

Existe uma outra trilha bem mais pesada que vai até lá embaixo, conhecida como Cachoeirão Por Baixo. Optamos por não fazê-la devido ao tempo que tínhamos, e o nível de dificuldade, que poderia ser além do nosso condicionamento físico. Como disse anteriormente, o melhor do Pati não é o atrativo A ou B, é simplesmente estar no Pati e caminhar por suas trilhas. Na nossa opinião, de nada adianta você fazer tudo correndo só para marcar um “check” no seu caderninho, sem ter o devido tempo de conexão e contemplação.

Na volta dessa trilha paramos em mais um mirante ali do lado, e depois fizemos o lanche, mas não sem antes dar um mergulho num poço de água que é formado antes das quedas (é de lei a gente entrar em todos os locais de banho numa trilha, por mais gelada que a água esteja!). Esse retorno até a Igrejinha foi bem cansativo. Como saímos do Cachoeirão um pouco mais tarde que o previsto pelo Sinho, ele apertou o passo e tivemos que suar para acompanhar o ritmo dele. Voltamos os 7km sem parar e chegamos de volta na Igrejinha às 15h15.

Após uma pausa rápida para descansar as pernas, a trilha seguiu por mais 1 hora até a Cachoeira dos Funis, onde fizemos mais tchibum, pra variar! 😉

Cachoeira do Funil
Cachoeira dos Funis

A tarde já começava a cair, e cerca de uma hora de trilha ainda nos aguardava até o próximo refúgio. Tínhamos a opção de fazer o percurso mais fácil, na trilha das mulas de carga, mas o Sinho nos presenteou com o caminho mais difícil e muito mais bonito pelo leito do Rio Funis. Esse caminho foi absolutamente de tirar o fôlego, beirando o leito do rio, pulando de pedra em pedra, enquanto o Morro do Castelo se erguia imponente iluminado pelos raios dourados do sol.

Morro do Castelo na trilha pelo leito do Rio Funis
Morro do Castelo na trilha pelo leito do Rio Funis

Chegamos já quase ao anoitecer na casa do seu Miguel e do Agnaldo. Éramos os únicos turistas lá, e passamos uma noite tranquila e agradável. Era preciso descansar, porque no dia seguinte faríamos um dos percursos mais puxados do Vale do Pati: a subida do Castelo.

Dia 3: Morro do Castelo, Poço próximo à prefeitura e pernoite na Prefeitura

O dia amanheceu cinzento. Na verdade, todo dia amanhecia meio cinzento, com neblina, mas ainda pela manhã o céu abria e depois ficava todo azul. No entanto, essa manhã o céu estava realmente encoberto e não estava com cara de quem abriria tão já. A vantagem foi que o clima estava bem ameno, o que ajudou bastante nessa trilha, famosa por ser uma das mais puxadas do percurso que fizemos.

De fato, a subida do Morro do Castelo não é fácil. Mas também não é nada impossível!

Começamos a subida um pouco antes das 9h. O esquema é ir um passo de cada vez, num ritmo constante e sem descanso. O segredo é a constância. Eu subia com a música “Pull Me Under”, do Dream Theater, na cabeça, onde ele diz “Every step brings me closer to my last” (cada passo me traz mais próximo do meu último). E no final das contas, quanto atingimos a base do morro de pedra (por volta das 10h), pareceu que a subida nem tinha sido tão puxada assim!

Entrada da gruta do Morro do Castelo
Entrada da gruta do Morro do Castelo
Gruta do Morro do Castelo
Gruta do Morro do Castelo

A travessia da gruta é fácil e rápida. É importante levar uma lanterna, pois a visibilidade lá dentro é praticamente nula. Na saída dela a trilha continua por cima das pedras, até que se chega num mirante. Uau! De lá é possível vislumbrar o “Pati de Cima”, que é basicamente os locais que a gente havia andado nos dois dias anteriores. Apesar do tempo encoberto, era possível ver o Gerais do Rio Preto, percurso do primeiro dia; o Gerais do Vieira, para onde se dá a saída para o Capão; a Cachoeira do Calixto, que infelizmente não teríamos tempo de ir; além dos morros que já eram velhos conhecidos nossos: Sobradinho e Lapinha. Lá em cima pairava o silêncio da montanha: apenas o som do vento, da cachoeira, e das Arapongas com o seu canto metálico inconfundível.

Vista para o Morro da Lapinha e Pati de Cima
Vista para o Morro da Lapinha e Pati de Cima

Descemos pela trilha e em poucos minutos chegávamos em um segundo mirante, com a vista para o “Pati de Baixo”, por onde andaríamos nos próximos dias. O Rio Pati, que é a junção dos rios Funis, Cachoeirão e Calixto, serpenteava pelo Vale formado pelos paredões e se perdia no horizonte. O céu dava sinais de que queria abrir, e ficamos um tempo esperando. Mas no final, decidimos que era melhor descermos.

Vista para o Pati de Baixo
Vista para o Pati de Baixo

A descida do Morro do Castelo foi tranquila. Bem mais do que a do Beco, que fizemos no primeiro dia. Chegamos de volta na casa do Seu Miguel e Agnaldo umas 13h30, e fizemos o nosso lanche por lá mesmo. Ainda tivemos um tempo para descansar nas margens do Rio Funis, que passa ali do lado.

Rio Funis passando ao lado da Casa de Apoio do Miguel e Agnaldo
Rio Funis passando ao lado da Casa de Apoio do Miguel e Agnaldo

Por volta das 15h a gente partiu rumo à Prefeitura, onde passaríamos a noite. Quando estávamos saindo, adivinha? O céu estava todo azul!

A trilha de 2 horas é plana e fácil. Ela passa entre os Morros Lapinha e Castelo, por entre as árvores de Quaresmeiras, que apesar de não estarem no auge da floração, enfeitavam o horizonte com as suas flores lilás, junto com as samambaias, que também davam o seu show cobrindo vastas áreas.

Samambaias na trilha para a Prefeitura
Samambaias na trilha para a Prefeitura

Mas foi chegando perto da Prefeitura, quando o sol estava mais baixo, que a trilha ficou ainda mais bonita. Íamos em direção a uma serra enorme que ainda não conhecíamos, mas logo o Sinho nos contou que era a famosa Subida do Império, que faríamos no último dia. E ao lado, outro morro de formato diferente se erguia se parecendo com um… castelo! Foi aí que descobrimos o motivo da nomenclatura dada ao monte que havíamos subido pela manhã. Observando por trás dele, realmente se parecia bastante com um castelo.

Vista para o Morro do Castelo
Vista para o Morro do Castelo

Enfim chegamos no local que passaríamos a nossa terceira noite. Ao contrário do que o nome diz, a Prefeitura não é e nunca foi de fato uma prefeitura. Neste local era armazenado o café e outros produtos que se produzia no vale, de forma que o quarto que dormimos já foi usado há muito tempo para estocar mercadoria.

Como ainda faltava um tempo para o pôr-do-sol, resolvemos conhecer um poço d’água que tem ali do lado. Fomos sem muitas pretensões, mas nos deparamos com um dos lugares mais bonitos que conhecemos no Vale do Pati. O sol do fim de tarde batia no Morro do Império, e refletia perfeitamente no poço, com as águas paradas formando um verdadeiro espelho.

Poço d'água próximo a Prefeitura
Poço d’água próximo a Prefeitura

À noite, no jantar com o Sinho, discutimos as opções que tínhamos para o dia seguinte. Era possível fazer uma caminhada longa e conhecer a Cachoeira Calixto, ou fazer uma trilha ainda mais pesada para o Cachoeirão por Baixo. Mas considerando que o quinto dia seria uma subida pesada e uma longa caminhada até Andaraí, resolvemos tirar um dia mais relax e ficar tranquilos no Poço da Árvore, que era ali pertinho. Seria o dia para recarregarmos as energias.

Dia 4: Poço da Árvore e pernoite na Dona Linda

Acordamos tarde no quarto dia, que amanheceu chuvoso e nublado. Com o alarme desligado, despertamos no horário que o nosso corpo pediu. Com um dia assim tranquilo, percebemos o quanto estávamos exaustos! Tomamos o café da manhã junto com um outro casal que acampava lá na Prefeitura, e que estavam esperando o tempo melhorar para subirem o Morro do Castelo. A gente, sem pressa, arrumava as nossas coisas para uma trilha de 15 minutinhos até o Poço da Árvore.

Vista da Prefeitura para o Morro do Castelo
Vista da Prefeitura para o Morro do Castelo

Chegamos lá por volta das 11h, e o céu começou a abrir. Que sorte, porque não seria uma tarefa fácil entrar naquela água super gelada sem um solzinho para nos aquecer.

Poço da Arvore
Poço da Arvore

O lugar é absolutamente lindo, com várias quedas de água baixinhas vindas do Rio Funis, e um poço não tão raso e nem tão fundo, sem correnteza, e ótimo para nadar! E de lá parte uma trilha de poucos metros que te leva a um segundo poço, este formado pelo Rio Calixto. Esse é o ponto que esses dois rios se encontram, formando o Rio Pati, que vai se encontrar mais para frente com as águas do Rio Cachoeirão.

Encontro do Rio Calixto com o Rio Funis
Encontro do Rio Calixto com o Rio Funis

Ficamos com o lugar só para nós dois durante todo o tempo que estivemos lá. Foi o momento que precisávamos para parar, respirar e fazer sentido de tudo aquilo que nos rodeava. Apesar de ser um dia sem grandes travessias, foi o dia mais importante para de fato sentir a grandiosidade do Vale do Pati. Recomendo que coloque um dia assim no seu roteiro! Um dia para parar e relaxar.

Saímos de lá por volta das 16h, e depois de 1 horinha de caminhada, estávamos na casa da Dona Linda, para fechar o dia com chave de ouro. É a hospedagem que mais gostamos nessa viagem, de uma energia única. Estavam ali também uma família de Salvador, e uma musicista dinamarquesa que estava morando no Brasil há 7 anos. Aquela seria a sua última noite no Vale do Pati, pois na semana seguinte iria embarcar para uma nova etapa nos EUA, fechando um ciclo aqui no nosso país.

Era noite de São João. Foi a primeira vez que recebemos cumprimentos de “Feliz São João!”.

Enquanto ouvíamos os rojões lá longe, provavelmente da casa de Dona Raquel (o “point” do Vale do Pati), acendemos uma grande fogueira, e ficamos conversando, comendo uma deliciosa canjica preparada pela Dona Linda, com o céu todo estrelado em cima de nossas cabeças. Aqueles momentos que só uma viagem proporciona, juntando pessoas improváveis numa noite especial.

A nossa fogueira de São João
A nossa fogueira de São João

Dia 5: Subida do Império, Andaraí e retorno para Lençóis

No último dia, saímos cedo da casa da Dona Linda. Às 7h estávamos partindo, pois o ideal é fazer a travessia para Andaraí ainda sob o sol da manhã, senão ele fica tão forte que a caminhada se torna bastante árdua. E foi! Mesmo com o sol ameno e o vento fresco, a caminhada final da trilha é bem cansativa.

Ela começa com a famosa “Subida do Império”. Trata-se de uma subida com degraus de pedra pela encosta da serra, que leva mais ou menos 1h30 de caminhada lenta e constante. Dizem que ela é a mais pesada pela sua extensão, mas não achamos ela pior do que a subida do Morro do Castelo, que é mais curta e mais íngreme. A Subida do Império tem alguns trechos planos que dá para descansar as pernas, então não foi tão difícil.

Elina e Sinho na Subida do Império
Elina e Sinho na Subida do Império

Conforme vamos subindo o morro, temos uma outra vista panorâmica do Vale do Pati, só que agora destacam-se a Serra do Cachoeirão e o Morro do Castelo mais à direita. Quando o Cachoeirão está cheio, dá para ver as quedas d’água dali. Como fomos no período de seca, só conseguimos ver o paredão, e o curso do rio.

Vista da Subida do Império para o Cachoeirão
Vista da Subida do Império para o Cachoeirão

Quando chegamos lá em cima, o coração apertou. No mirante temos a última vista para o Vale do Pati. De lá não é mais possível ver o Morro do Castelo, que nos acompanhou em todos esses dias, mas é possível se despedir da Serra do Cachoeirão e de todo o Vale que se extende lá embaixo.

Ultima vista para o Vale do Pati
Ultima vista para o Vale do Pati

Agora era hora de caminhar (muito) até Andaraí. São quase 3 horas de caminhada sofrida, em uma trilha de mata aberta onde o sol castiga. O psicológico não ajuda, porque sabemos que o percurso vai nos levar para fora desse paraíso, em direção a uma cidade que está fervendo por causa do São João, com seus carros de som e muito rojão. Lá ao longe já era possível ver a cidade, que parecia que não chegava nunca… no caminho, passamos por um cenário de muitas pedras entulhadas, frutos das atividades de garimpo que ali ocorreram no século XIX.

Caminho para Andaraí, com a cidade ao fundo
Caminho para Andaraí, com a cidade ao fundo

Chegamos em Andaraí ao meio dia em ponto. Tristes pelo fim, mas orgulhosos por ter conseguido terminar inteiros os quase 60 km de trilhas pelo Vale do Pati. O motorista Liu estava nos esperando conforme o combinado, e nos levou de volta para Lençóis. Tínhamos ainda a opção de conhecer o Poço Encantado, que é lá perto, mas sabíamos que estaria lotado de gente (feriado de São João), e não queríamos ter essa experiência frustrante para finalizar a nossa viagem. Resolvemos manter o encanto que havíamos ficado com o Vale do Pati.

E assim voltamos para Lençóis. Ainda tivemos tempo de curtir um pouco a cidade, tomar um banho e descansar na Pousada Casa da Geléia, onde o Sr. Zé Carlos e a Sra. Lia gentilmente nos fizeram companhia até a hora de irmos para a Rodoviária pegar o ônibus.

Cidade de Lençóis preparada para o São João
Cidade de Lençóis preparada para o São João

Dicas

Quando estávamos pesquisando sobre a trilha do Vale do Pati, tivemos uma série de dúvidas, que espero esclarecer algumas aqui para quem precisar:

  • Será que eu vou aguentar?

Olha, a trilha é pesada. É o dia inteiro andando, com algumas subidas e descidas… mas não é nada de outro mundo. Recomendo que faça uma preparação física antes de ir para lá. No nosso caso, um mês antes da viagem a gente corria cerca de 5km duas ou três vezes por semana. Além disso, procurávamos usar escadas sempre que dava, seja em casa, no metrô. Só no trabalho que não, porque é muito alto! hahaha… Se você já tem um condicionamento físico razoavelmente bom, não terá dificuldades.

  • O que levar?

Tente levar o mínimo possível. Cada grama na mochila vai pesar depois de tantos quilômetros andando. A gente ficou 5 dias, mas eu tinha 3 camisetas, por exemplo. Vai repetindo roupa, ninguém vai te julgar por isso! hahaha! Ainda que no meu caso a mochila ficou bem pesada, porque eu levo equipamentos fotográficos junto, então o que me ajudou foi uma pochete, que apesar de brega, foi bastante útil para carregar a lente e filtros. Recomendo que leve também aqueles bastões de caminhada, do mais barato que tiver lá da Decathlon. Nunca tínhamos feito trilha com eles, e ajudam MUITO, principalmente nas subidas e descidas.

Não precisa levar toalha, porque em todos os lugares que ficamos, disponibilizaram para nós. Isso economiza um espaço enorme na mochila.

Em diversas trilhas que fizemos, a gente saía e voltava para a mesma hospedagem, então era só levar uma “mochila de ataque”, com coisas básicas como filtro solar, um pouco de comida e água. Sobre a água, não se preocupe, porque você vai passar por várias fontes naturais (só na subida do Império até Andaraí que não vai ter mesmo). A própria água das hospedagens são de nascentes, e próprias para o consumo. Apesar de ela ter cor, é potável. Por 5 dias só tomamos essas águas, e não tivemos problema.

A água é dessa cor, mas é potável
A água é dessa cor, mas é potável
  • Qual trajeto fazer?

Independente de onde você vai entrar e sair, as trilhas passam basicamente pelos mesmos lugares. Claro, algumas diferenças, mas nada que vá tornar um trajeto mais ou menos completo que o outro. Ouvi muitas recomendações de entrar por Guiné, porque o primeiro dia é relativamente fácil. Se você entrar por Andaraí, por exemplo, já vai de cara começar com aquele percurso longo que fizemos no último dia, e depois vai ter que descer o Império. Mas o melhor mesmo é discutir as opções com o seu guia um dia antes de partirem.

  • Quanto tempo ficar?

Tem gente que faz o Pati em 3 dias, mas eu recomendo pelo menos 5. Em cinco dias você consegue fazer muita coisa, e com calma. É legal fazer essa trilha tranquilo, realmente se conectando com o lugar. Se você fizer tudo na correria, além de ser super cansativo, talvez você nem consiga sentir a energia do Vale.

  • Quero ir! Qual agência devo procurar?

Olha, eu sinceramente prefiro fazer as coisas mais por conta. Se você ficar num grupo grande, numa trilha desse tamanho é quase certo que você terá algum problema. Alguém vai ter um ritmo muito mais lento que o seu, outro vai ter um ritmo muito mais rápido, um vai querer parar toda hora para tirar foto de passarinho, outro vai querer fazer tudo correndo para poder fazer mais coisas em um dia… é melhor você fechar um grupo de conhecidos (4 pessoas pra mim é o limite), e contratar um guia direto.

O Lucio e o Sinho são excelentes guias, recomendados por uma amiga que morou lá em Lençóis por um período de sua vida. E eles guiaram outros amigos meus, que também adoraram. Então com eles é um tiro certo! O Lucio é também proprietário da pousada Casa da Geleia, e você pode chamá-lo no Whats pelo número +55 75 99863-8207.

Espero que esse post te ajude e inspire a fazer a trilha do Vale do Pati, eleita uma das mais bonitas do mundo, e logo aqui no nosso quintal! 🙂 E se você quiser ver mais fotos dessa e outras viagem, não deixe de seguir também o nosso Instagram!

Um bom Pati para vocês! 😉

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